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Um Porco em Varsóvia PDF Imprimir E-mail

Rafael Bán Jacobsen


    Duas épocas, duas realidades, mas um só princípio: um determinado grupo de indivíduos, outorga a si próprio, baseado em seus próprios critérios, o status de superioridade moral e, cegado por essa falsa condição, subjuga, explora, oprime, aprisiona e mata um outro grupo de indivíduos, tido como inferior.
    Vivemos – ainda bem – em uma época em que nossa esfera de consideração moral já se expandiu o suficiente para sabermos que judeus (ou africanos, ou índios, ou mulheres) não são indivíduos inferiores e que, portanto, não podemos nos utilizar deles, com ou sem violência, para satisfazer nossos próprios interesses.
    Duas épocas, duas realidades, duas crônicas, mas que, na verdade, são uma só: a crônica do que há de patético, ridículo e, é claro, doloroso quando nosso senso de ética e moralidade falha e se curva ante o preconceito. O tom é de crônica humorística, mas a realidade não tem a menor graça.
    Quando chegará o tempo em que os dois textos nos parecerão igualmente absurdos? Quando chegará o dia em que as duas narrativas nos despertarão igual repugnância? Quem de nós dará o primeiro passo na construção desse futuro?


Porco fujão passeia pela João Pessoa
Suíno saltou de carroceria de caminhão e desfilou entre os carros


Um engarrafamento poucas vezes foi tão divertido como o do começo da manhã de ontem na Avenida João Pessoa, quase no centro de Porto Alegre. O responsável por arrancar gargalhadas dos motoristas, em lugar de xingamentos e buzinaços, foi um porco fujão de aproximadamente cem quilos.
O suíno saltou para a avenida da carroceria de um caminhão, ziguezagueou entre ônibus e automóveis, fintou pedestres que tentaram agarrá-lo, emporcalhou um restaurante e saiu de cena misteriosamente, depois de colocar a avenida em polvorosa.
O rebuliço começou pouco antes das 8h, perto do Viaduto Imperatriz Leopoldina, acesso ao Centro. Testemunhas contam que o animal saltou da carroceria baixa de um caminhão carregado de suínos que transitava no sentido bairro-Centro. Estatelou-se na pista, refez-se e começou a desfilar sem pressa por entre os carros. Quando tentaram enxotá-lo para o Parque Farroupilha, que fica ao lado, o animalzão teimou e preferiu o rumo contrário. Invadiu o corredor de ônibus para continuar seu passeio na metrópole.
- Cheguei e vi o porco passeando, bem bonitinho, pelo corredor. Um ônibus Viamão vinha atrás dele, devagar, esperando. De vez em quando, o porco colocava a cabeça em cima da mureta e ficava olhando para todo mundo, bem calmo. Foi genial. Até os motoristas, que geralmente são atacados, morreram de rir. O porco fez o dia começar bem para todo mundo - contou Isolda Cesar, que tem uma loja na Rua Luiz Afonso, quase na esquina com a João Pessoa.
O salseiro seguiu. Enquanto o trânsito da hora de pico degringolava em confusão, pedestres que circulavam pela área ou esperavam o ônibus começaram a gritar.
- Olha o porco! Pega o porco!
Um homem tentou empurrar o animal para fora da avenida. Aparentemente assustado com a gritaria e com a perseguição, o suíno aproveitou que um carro ingressava na garagem de um edifício e adentrou pelo portão aberto. Em seguida, escapou de novo para a rua. Algumas dezenas de metros adiante, foi interceptado por João Paulo da Costa Morales, funcionário de um brique, que chegava naquele momento para trabalhar.
- Agarrei o porco pelas orelhas, mas ele escapou. Já estava muito agitado, berrando.
Atraído pela gritaria que vinha da rua, Frederico Lamachia foi para a sacada do seu apartamento e filmou parte da fuga espetacular. Ele conta que ninguém sabia como agarrar o animal. Quando tentaram puxá-lo pelo rabo, ficou possesso - em outras palavras, montou num porco. Invadiu como um bólido o Restaurante Cachoeirense, situado a pouca distância, correu para o banheiro e depois empenhou-se em chafurdar entre as mesas.
- Foi um susto. Era um porco enorme. Meu filho de três anos ficou tremendo de tão assustado. E o bicho tinha um fedor horrível. Sujou e bagunçou tudo. Tive de fechar as portas e pedir para a funcionária vir mais cedo e limpar a a imundície que ele fez - disse a proprietária, Regina Santos Teixeira.
O visitante pesadão ficou por cerca de 20 minutos dentro do restaurante. Não havia jeito de arrancá-lo de lá. Para ajudar, vieram Morales e seu patrão, do brique vizinho, e um militante que trabalhava no diretório municipal do Partido dos Trabalhadores, instalado um pouco adiante, também na João Pessoa. Os relatos dão conta de uma batalha titânica entre as espécies humana e suína.
- Laçamos o bicho pela barriga, mas mesmo assim ele escapou. Foi muito difícil - descreveu Morales.
Finalmente subjugado, amarrado e vencido, o bicho rebelde pagou os instantes de liberdade com o confinamento. Militantes do PT que chegaram pouco depois para a reunião da executiva municipal se surpreenderam. Não restava dúvida: havia algo cheirando mal no partido. Era o porco, aprisionado na garagem do diretório. Quando um homem desceu de um caminhão velho e vazio e disse que o sujismundo era propriedade sua, entregaram o animal com alívio, segundo o secretário da agremiação política, Álvaro Corrêa.
- Não dava para ele ficar lá. Era um fedorão.
De volta à carroceria de um caminhão, a estrela do dia se desvaneceu no anonimato.
(Jornal Zero Hora, 06/06/2008)

Judeu fujão passeia pela Avenida Wawelska
Semita saltou de carroceria de caminhão e desfilou entre os carros


Um engarrafamento poucas vezes foi tão divertido como o do começo da manhã de ontem na Avenida Wawelska, em Varsóvia. O responsável por arrancar gargalhadas dos motoristas, em lugar de xingamentos, foi um judeu fujão de aproximadamente 50 anos.
O judeu saltou para a avenida da carroceria de um caminhão, ziguezagueou entre carros e carroças, fintou pedestres que tentaram agarrá-lo, emporcalhou um restaurante e saiu de cena misteriosamente, depois de colocar a avenida em polvorosa.
O rebuliço começou pouco antes das 8h. Testemunhas contam que o semita saltou da carroceria baixa de um caminhão carregado de judeus em trânsito entre dois campos de trabalho. Estatelou-se na pista, refez-se e começou a desfilar sem pressa por entre os carros. Quando tentaram enxotá-lo para os campos do Parque Mokotów, que fica ao lado, o indivíduo teimou e preferiu o rumo contrário, continuando seu passeio na metrópole.
- Cheguei e vi o judeu passeando pela avenida. Um caminhão vinha atrás dele, devagar, esperando. De vez em quando, o judeu colocava a cabeça em cima da mureta e ficava olhando para todo mundo. Foi genial. Até os motoristas, que geralmente são impacientes, morreram de rir. O judeu fez o dia começar bem para todo mundo - contou Maria Zwolinski, que tem uma loja na Rua Sedziowska, quase na esquina com a Avenida Wawelska.
O salseiro seguiu. Enquanto o trânsito degringolava em confusão, pedestres que circulavam pela área começaram a gritar.
- Olha o judeu! Pega o judeu!
Um homem tentou empurrar o fugitivo para fora da avenida. Aparentemente assustado com a gritaria e com a perseguição, o judeu aproveitou que um carro ingressava na garagem de um edifício e adentrou pelo portão aberto. Em seguida, escapou de novo para a rua. Algumas dezenas de metros adiante, foi interceptado por Ludwik Jaworski, funcionário de uma loja de antiguidades, que chegava naquele momento para trabalhar.
- Agarrei o judeu pelas orelhas, mas ele escapou. Já estava muito agitado, berrando.
Atraído pela gritaria que vinha da rua, Adank Rosinski foi para a sacada de sua casa e chegou a testemunhar parte da fuga espetacular. Ele conta que ninguém sabia como agarrar o judeu. Quando tentaram puxá-lo pelos cabelos, ficou possesso. Invadiu como um bólido o Restaurante Zawada, situado a pouca distância e correu para o banheiro, bagunçando várias mesas.
- Foi um susto. Era um judeu enorme, todo esfarrapado, imundo. Meu filho de três anos ficou tremendo de tão assustado, afinal todos nós sabemos que os judeus usam sangue de criancinhas para beber em seus rituais. E o sujeito tinha um fedor horrível. Sujou e bagunçou tudo. Tive de fechar as portas e pedir para a funcionária vir mais cedo e limpar a imundície que ele fez - disse a proprietária, Aniela Sadowska.
O indesejado visitante ficou por cerca de 20 minutos dentro do restaurante. Não havia jeito de arrancá-lo de lá. Para ajudar, vieram Jaworski e seu patrão, da loja de antiguidades vizinha, e um militante que trabalhava no diretório do Partido Nacional-Socialista. Os relatos dão conta de uma batalha titânica entre os homens e o judeu.
- Laçamos o judeu pela barriga, mas mesmo assim ele escapou. Foi muito difícil - descreveu Jaworski.
Finalmente subjugado, amarrado e vencido, o fugitivo rebelde pagou os instantes de liberdade com o confinamento. Militantes do Partido Nacional-Socialista que chegaram pouco depois para a reunião da executiva municipal se surpreenderam. Não restava dúvida: havia algo cheirando mal no partido. Era o judeu, aprisionado na garagem do diretório. Quando um homem desceu de um caminhão velho e vazio e disse que o sujismundo estava sendo transportado em seu veículo quando fugiu, entregaram o judeu com alívio, segundo o secretário da agremiação política, Friederich Schultz .
- Não dava para ele ficar lá. Era um fedorão.
De volta à carroceria de um caminhão, a estrela do dia se desvaneceu no anonimato.

(extraído de um certo jornal polonês em 06/06/1944)

 
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